Mãe – Relação Delicada

Estou vivenciando um momento que tem me levado às profundezas do existir, no sentido da minha vida. Um momento de delicadeza.  Perceber em mim algo que sempre existiu e que agora emerge intensamente.

Sentimentos e emoções que aos poucos tem se apresentado, mesmo que eu não queira.

Não estão sob o meu controle. Uma espécie de “ tesouro “. O meu autoconhecimento.

Minha mãe está com Alzheimer … instalou-se devagarinho, quase escondido e agora está presente, bem presente.

O Alzheimer trouxe para mim através da minha mãe, um retorno ao período da infância onde tantos acontecimentos estavam esquecidos.

Sensações indescritíveis … às vezes parece que estou no útero novamente revivendo aquele período.

Nas conversas com minha mãe por repetidas vezes ela me conta sua infância, sua juventude, seus sonhos de adolescente.

Ouço e vou compreendendo o incompreensível.

É um impacto grande saber que dentro de um tempo que eu não controlo, ela terá dificuldades em me reconhecer.

Mas também sei que a alma dela sempre saberá quem sou: filha. A quarta filha. A caçula. Atualmente somos apenas duas irmãs. Meus outros irmãos faleceram.

É trabalhoso lidar com esta condição, exige disposição, paciência, calma.

Nem todos os dias estou disposta, paciente e calma, principalmente quando ela também não está.

No entanto, tem ocorrido em mim, vivenciar sentimentos que lembro claramente de sentir na infância em relação a ela: amor que não se mede. Amor sem restrições, amor, simplesmente amor.

Conforme crescemos, por circunstâncias da vida, este amor se transforma, as vezes nos afastamos deste amor, sentimos raiva de amar a mãe, e projetamos esse amor em outras pessoas. O amor pela mãe, as vezes se perde por aí temporariamente.

Minha mãe envelheceu. É o processo natural que todos nós, se não morrermos antes, viveremos.

O Alzheimer acentua as frustrações, os desejos omitidos, os sonhos não realizados, à raiva reprimida por décadas. Não há tempo presente. Há o tempo passado.

Junto com tudo isso vem também algumas revelações.

Fatos, acontecimentos, segredos guardados por anos em um enorme “ baú” chamado memória.

Memória esta, que se esvai com o tempo, para quem tem Alzheimer.

Sinto-me honrada de ser filha da minha mãe.

Ela é a mãe certa para mim. Não podia ser outra.

Se não fosse ela, não seria eu a escrever aqui.

Algo em mim, está sendo curado. Das profundezas do meu ser vem o choro.

Minha criança interior chora e tem medo.

Eu adulta vou cuidando desta criança que precisa de mim.

Mãe é a mais importante referência, junto com o pai.

Tenho medo da dor da orfandade de mãe. Meu pai já descansa em paz…

Chorar é inevitável…

Chorar cura. Apazigua a alma.

Estou prestando atenção.

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